Na Ponta do Valongo, onde o estuário de Santos encontra o oceano, uma comunidade de pescadores artesanais mantém viva uma tradição que remonta ao século XIX. São cerca de 80 famílias que vivem da pesca de tainha, robalo, camarão e berbigão, usando métodos que seus avós ensinaram e que seus filhos estão aprendendo.

Mas o futuro dessa comunidade está ameaçado. Os planos de expansão do Porto de Santos, que preveem a criação de novos terminais de contêineres na área, colocam em risco tanto as moradias quanto os pesqueiros tradicionais da região.

"Meu pai pescou aqui, meu avô pescou aqui. Não tem outro lugar para ir", diz um pescador de 58 anos que prefere não se identificar. "Eles falam em indenização, mas dinheiro não compra o que a gente tem aqui."

A disputa não é nova. Desde 2018, quando os planos de expansão foram tornados públicos, a comunidade do Valongo trava uma batalha jurídica e política para garantir sua permanência. Conseguiram algumas vitórias: uma liminar judicial suspendeu as obras em 2021, e uma audiência pública realizada em 2023 resultou em um compromisso da autoridade portuária de estudar alternativas que preservassem a comunidade.

Mas o processo avança lentamente, e a pressão aumenta. O governo federal incluiu a expansão do porto de Santos entre as prioridades do Programa de Aceleração do Crescimento, o que aumenta a urgência das obras e reduz o espaço para negociação.

Organizações ambientais também se envolveram na disputa. A área de pesca artesanal do Valongo é considerada um berçário natural de espécies marinhas, e sua destruição teria impactos que vão além da comunidade local. "Estamos falando de um ecossistema que leva décadas para se recuperar", alerta uma bióloga marinha que assessora os pescadores.

A próxima audiência judicial está marcada para agosto. Os pescadores esperam que o juiz mantenha a liminar e force uma negociação mais ampla com a autoridade portuária.