Seu Antônio tem 78 anos e abre o Bar Boqueirão todos os dias às seis da manhã, do mesmo jeito que seu pai fazia quando ele era criança. O café coado na hora, o pão na chapa, o balcão de mármore que resistiu a reformas, enchentes e décadas de transformações no bairro.
"Meu pai abriu em 1947", ele conta, enquanto serve um café para o primeiro cliente da manhã, um estivador que trabalha no turno da madrugada. "Eu entrei aqui com 12 anos para ajudar e nunca mais saí."
O Bar Boqueirão fica na Rua do Comércio, no coração do centro histórico de Santos, a poucos metros do casarão onde o escritor Monteiro Lobato viveu parte de sua vida. A rua já foi uma das mais movimentadas da cidade, quando o porto era o coração econômico de São Paulo e Santos era uma metrópole em expansão. Hoje, ela tem um ar melancólico, com muitos imóveis fechados e um movimento bem menor.
Mas o bar resiste. Seu Antônio atribui a longevidade a alguns princípios simples: qualidade, preço justo e respeito pelo cliente. "Nunca aumentei o preço de uma vez só. Sempre fui devagar, para não assustar." O café custa R$ 3,50, o pão na chapa R$ 6. "Não é para ficar rico. É para continuar."
A clientela é fiel e diversa. Estivadores, advogados, aposentados, turistas que descobriram o lugar por indicação. Nos fins de semana, filhos e netos de clientes antigos aparecem para mostrar o lugar para seus próprios filhos. "Tem gente que me diz que o avô dela vinha aqui. Isso me emociona."
Seu Antônio não tem filhos, e a questão da sucessão é um tema que ele evita. "Enquanto eu tiver saúde, o bar fica aberto. Depois, Deus dirá." A prefeitura já sinalizou interesse em tombá-lo como patrimônio histórico, mas o processo burocrático avança devagar. Por enquanto, o Bar Boqueirão continua sendo o que sempre foi: um lugar onde o tempo passa mais devagar e o café tem gosto de memória.